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ANA VIEIRA NA COLECÇÃO DA FUNDAÇÃO DE SERRALVES Adicione ao seu calendário


22 Mar - 30 Abr 2006 - PAVILHÃO CENTRO DE PORTUGAL, COIMBRA

Na obra de Ana Vieira, a casa torna-se um lugar de passagem do olhar e da percepção sensorial. Neste sentido, trata-se de uma casa nómada, atravessada pelo cruzamento de continuidades e descontinuidades que baralham o que se poderia entender pelo seu “dentro” e pelo seu “fora”, que ora distinguem ora indistinguem os domínios do privado e do público, da intimidade e da revelação. A casa torna-se deste modo o território de uma cumplicidade partilhada com aquele que a visita, um segredo cujo conhecimento não lhe diminui o mistério mas acentua um jogo subtil de aproximações e distanciamentos que nela situam e marcam o percurso do visitante.
As obras de Ana Vieira são, desde o seu início, “atravessáveis” pelo olhar. Os ambientes em que Ana Vieira apresenta e representa os lugares de uma possível domesticidade teatralizam a intimidade sem lhe roubarem os seus segredos. As suas paredes (quando materializadas) convertem-se em pontos de passagem da opacidade à transparência, através dos tecidos, redes e véus que filtram, centram e descentram o olhar do espectador. A ocultação e a desocultação implicam-se reciprocamente em cada projecto, numa tensão entre o que é revelado e o que é escondido, transferindo o plano da arquitectura para o plano da intimidade, distanciando-se do que no primeiro é monumento – narrativa da exterioridade e da ideologia –, para se centrar no segundo, labirinto de sensações e percepções onde o desejo se intui como um segredo cumplicemente partilhado.
Com a presente exposição, Ana Vieira na Colecção da Fundação de Serralves, pretende-se promover o diálogo entre um pequeno núcleo de obras representativas da artista e a realidade arquitectónica de Siza Vieira evidente no Pavilhão Centro de Portugal. Apresentada pela primeira vez em 1982 na Galeria Quadrum, e posteriormente exibida na Casa de Serralves quando da exposição antológica da artista em 1998, a peça Corredor pode ser agora vista em Coimbra, refeita e adaptada ao espaço do Pavilhão. Em madeira, ferragens de alumínio e pano de algodão branco, a peça, de extensas dimensões, convida o espectador a experimentar um percurso. Como em muitas outras obras desta artista a audiência é obrigatoriamente ambulatória, estando confrontada com uma experiência que sublinha e amplifica os próprios processos de percepção.
No piso superior do Pavilhão somos confrontados com as peças Mesa-Paisagem, de 1975 e Janelas, de 1978. A mesa, que tanto pode convocar a imobilidade quanto a ideia de plataforma para uma acção, é aqui encarada na segunda acepção – como uma superfície horizontal onde se podem passar coisas. Alguém já afirmou que se constituem como imagens puras do devaneio, “da disposição do espírito para a deriva, para a viagem imóvel”.
Janelas é um diaporama, constituído por slides, um guião, seis projectores e banda sonora, que nos permite a visualização de um conjunto de janelas. Aqui, o movimento cinemático de imagens e sons invade a parede, transformada em ecrã. Enquanto vemos o interior de uma casa habitada, ou alguém que espreita (não sabemos muito bem se para fora ou para dentro), somos apanhados numa armadilha que nos institui como voyeurs e em que adquirimos uma inédita consciência da nossa condição de espectadores; em que, antes de mais – e esta é uma das características mais cativantes da arte contemporâneas – observamos o nosso próprio acto de observação.

Comissariado: João Fernandes



Mecenas do Museu





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