
Matt Mullican: More Details from an Imaginary Universe
21 Julho / 1 Outubro 2000
A Fundação de Serralves apresenta uma exposição da obra de Matt Mullican, através de trabalhos feitos entre 1973 e 1999 que reflectem a investigação deste artista norte-americano sobre os processos de percepção e o modo como poderemos representar o mundo que nos rodeia.
Como explica Allan McCollum, num dos textos do catálogo que acompanha a exposição, “É este processo interno – construir o mundo em que vivemos e preservar a sua estabilidade – que parece interessar especialmente a Matt Mullican. A sua obra – produto de uma introspecção pormenorizada, quase obsessiva – configura-se como uma tentativa elaborada de fazer uma duplicação externa do vasto complexo de representações internas que constituem a forma como Mullican entende o mundo em que vive. Através da utilização de todos os suportes imagináveis – desenhos, leituras, performances, cartazes, sinais, esculturas, faixas, etc. –, Mullican dispôs-se a recriar, para os sentidos externos, uma imagem multidimensional dos processos normalmente inconscientes, interiores, presentes em todos nós. Ao longo da sua obra vemos desenrolar-se um drama – um drama por que todos nós passamos no dia-a-dia, embora inconscientemente – quando ele representa a forma como constrói, assimila, desintegra, modifica, reconstrói e, de uma maneira geral, trabalha para manter o seu sentido pessoal da realidade.”.
Alguns dos trabalhos seleccionados para Serralves nunca foram expostos. É o caso, por exemplo, de uma série de fotografias e colagens de 1973-74 que deixam adivinhar o interesse posterior do artista pela realidade virtual, pela arquitectura e pela hipnose.
Sobre as performances sob hipnose de Matt Mullican, escreve, também no catálogo, Kathy O’Dell, professora agregada de História e Teoria da Arte na Universidade de Maryland, E.U.A. : “Quando vejo e revejo os documentos em vídeo das performances sob hipnose de Mullican, é esta frase que perdura na minha mente mais do que qualquer outra, encerrando aquilo que considero a mensagem mais importante da obra: Temos de valorizar e acalentar suspensões intermitentes do sentido crítico – não apenas no processo de criação artística, mas noutros domínios.
Mullican mostrou que a sensação de deriva, improvisação e irrealidade de não saber o que vai aparecer ou acontecer a seguir quando se está sob hipnose é precisamente a sensação que os artistas esperam – e, sem dúvida, precisam de – experimentar todos os dias. Entrar nesse estado psico-emocional não é necessariamente fácil, como bem o sabe quem já tenha tentado criar alguma coisa onde antes nada existia. E esse “alguém” é, seguramente, todas as pessoas. A resistência interna e externa, como a tão falada linha na areia, pode impedir-nos de periodicamente experimentar suspensões produtivas do sentido crítico. As performances sob hipnose de Mullican são metáforas instrutivas sobre como transpor essa linha.”.
A arte de Matt Mullican é uma tentativa de organizar o mundo, de distinguir entre o que vemos e o modo como o vemos. Não é assim surpreendente que a infinita variedade de assuntos seja reflectida nas imagens que gera.
A exposição apresentada pelo Museu de Serralves contempla os variadissimos meios e materiais usados por Matt Mullican, consoante a categoria segundo a qual são organizados: por exemplo, sob a categoria “Informação” apresentam-se cartazes, decalques, quadros de informação, enquanto sob o conceito de “Arquitectura” expõem-se mapas, cartas geográficas, anatomias, vídeos criados por computador, etc.
Esta exposição tem como comissário Michael Tarantino, critico de arte norte-americano e até há pouco tempo conservador-chefe do Museum of Modern Art de Oxford, é organizada pelo Museu de Arte Contemporânea de Serralves e co-produzida com os restantes locais por onde irá passar:
- Fundació Antoní Tàpies, Barcelona
- Museum of Modern Art, Oxford
- Kunstwarein St. Gallen Kunst Museum, St. Gallen
- Museum Haus Esters, Krefeld
- Museum für Moderne Kunst, Bozen / Museo d’Arte Moderna, Bolzano
Também no dia 21 de Julho, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves inaugura uma outra exposição, sob o título “Arte Africana da Colecção Han Coray, 1916-1928”, que será instalada por Matt Mullican. Desta forma, o olhar do artista substituirá o olhar do coleccionador Han Coray.
Han Coray (Suíça, 1880-1974) foi professor, galerista, mecenas, editor e escritor, mas ficou conhecido sobretudo pela sua actividade como coleccionador de arte africana ( entre 1916 e 1928 conseguiu reunir cerca de 2400 obras de arte africanas) e por ter organizado, em Zurique, a primeira exposição Dadaísta. Han Coray era, aliás, amigo de muitos dos artistas Dadaístas, como é o caso de Hans Arp e Tristan Tzara.