O Museu de Serralves e a SONAE iniciaram em Agosto um Projecto Anual de Residências Artísticas na cidade do Porto.
Os artistas convidados por Serralves para a primeira edição deste projecto são a inglesa Charlotte Moth e a dupla portuguesa !Von Calhau!, constituída por Marta Baptista e João Alves.
Aos três artistas foram disponibilizados, durante aproximadamente três meses, espaços de trabalho e condições de produção que lhes permitiram produzir obra nova, nalguns casos pensada especificamente para o espaço de apresentação pública do trabalho entretanto realizado.
O espaço eleito para receber os artistas, e para organizar a presente exposição, é o edifício que albergou o antigo Instituto Araújo Porto, uma escola para surdos-mudos que funcionou durante grande parte do século passado e que foi desactivada há aproximadamente dois anos, e um Pavilhão anexo à escola, onde tinham lugar as festas de Natal e de final de ano lectivo, saraus e recitais (este edifício tem um palco e painéis de insonorização, o que leva crer que aqui terão sido apresentadas peças de teatro e concertos).
A escolha deste local corresponde ao recente interesse, por parte de muitos artistas, no repensar de modelos pedagógicos e de transmissão de conhecimento (tudo aquilo que admitimos enquanto conhecimento, informação, comunicação e partilha de dados): escolas, academias e aulas são modelos frequentemente empregues por artistas e curadores – como estes se aplicam na organização de workshops, seminários, conferências, ciclos de cinema – tudo formatos iminentemente pedagógicos.
Esta antiga escola para surdos-mudos também responde à importância crescente que a oralidade tem assumido nas manifestações artísticas contemporâneas – concertos, textos ditos por actores, recurso a ferramentas teatrais (ideia de palco e de plateia, por exemplo), são tudo formatos a que um visitante de exposições ditas de artes visuais está cada vez mais familiarizado.
Os artistas seleccionados para a residência, e cujos percursos atestam um interesse por formas artísticas como a música e a performance, têm neste palco uma oportunidade ímpar para continuarem a explorar a relação entre as artes visuais e as chamadas "artes do tempo".
Repetindo a pergunta que o famoso curador português Ernesto de Sousa colocou num famoso texto de 1968, a oralidade será mesmo o futuro da arte?
