Voltar a www.serralves.pt
 

 



Cartas à Lourdes: das 4 às 5


I. Mar que o vento não mexe

“Serena, eu? Não sei, sei que sou mar que o vento não mexe, ao contrário da maioria das pessoas, que tudo tenta alcançar sem nunca chegar a si mesma…” Logo a seguir, contraponto à imagem de um mar parado, a Lourdes falou-me de uns anos 1950 muito revoltos e itinerantes.

Cada juventude gosta de pensar que é mais jovem do que a precedente; mais viajada, mais miscigenada, mais esclarecida, mais conectada com o mundo. Uma ilusão, a maioria das vezes. A Lourdes, que até 1950 nunca tinha saído da Madeira – o mundo lá fora eram os livros e as músicas lidos e cantadas no Colégio Alemão do Funchal –, chega a Lisboa nesse ano para frequentar a Escola Superior de Belas-Artes. Da escola guarda memórias da falta de liberdade das colegas, muito bem comportadas e a estudarem com o único objetivo de se tornarem professoras (“não é que alguma vez tenha decidido ser artista, mas sabia que não queria ser professora – talvez por ter tido o exemplo de uma avó que foi uma excelente professora – ou gravadora –, um título que se te cola, que não te permite seres mais nada”) e, mais importante, da total ausência de autonomia artística. Chegou ao continente uns meses antes de começarem as aulas, para visitar com o pai – que a acompanhou nesta primeira viagem (“fomos de barco”) –, familiares e diversos locais no Norte de Portugal (parentes do Porto e o Bom Jesus de Braga, nomeadamente) e para, já instalada em Lisboa, se preparar para o exame de admissão nas Belas-Artes. Passou o teste, o que significa que conseguiu absorver e reproduzir aquilo que a Academia admitia, que considerava “artístico”, mas nas aulas cedo percebeu que nunca se iria adaptar aos cânones perpetuados. Resultado: falhou nos exames finais e nunca concluiu o curso – a linha no seu currículo que esclarece não ser licenciada tornou-se com o tempo uma bem-vinda, imprescindível distinção. As cores admitidas, por exemplo, eram coisa que não conseguia respeitar: lembra-se de fazer um autorretrato à noite e de como, iluminada artificialmente (“Ou seria pelas estrelas? Não me lembro”), a cor da sua pele não respeitava, claro, a paleta autorizada pelo academismo vigente…

Orgulhosamente reprovada e com a certeza de que teria de sair de Portugal – exatamente para onde, não sabia…, para “onde a vida fosse maior…” –, encetou um dia uma conversa com um jovem alemão perdido em Lisboa (“queria praticar a língua”). Um acaso que se revelou fundamental: foi ele quem lhe falou de um espaço em Munique que funcionava como uma espécie de cooperativa e que era simultaneamente um espaço para viver, trabalhar e expor. Foi nessa cidade alemã que Lourdes Castro viveu durante um ano, em 1957–58, antes de se instalar em Paris. Os jovens de hoje que me perdoem, mas sem Programa Erasmus, Interrail, Internet, correio eletrónico nem redes sociais podia-se falar com um estrangeiro e ficar suficientemente entusiasmado e curioso com aquilo que ele descrevia para, num impulso, decidir ir conhecer essa realidade imediatamente e partir à aventura. Nesses anos também se praticava muito o auto-stop e foi assim que a Lourdes conheceu muitos países. Sobre estas viagens escreveremos depois. Para já, salto para a frente: Paris, anos 1960.

Em Paris a Lourdes foi adotada pela pintora Maria Helena Vieira da Silva que, a caminho da consagração, era frequentemente convidada para eventos em que tinha de se apresentar muito composta. Para essas ocasiões comprava roupa elegante que, não tencionando voltar a usar, dava depois a uma Lourdes Castro exatamente com a “même taille” (“até o número dos sapatos era o mesmo!”).

Agora recuamos: Lisboa, anos 1950. Outro consagrado: Almada Negreiros. “O Mestre Almada, era assim que lhe chamavam, era suficientemente curioso para ir às nossas inaugurações, de jovens estudantes de arte. Também o víamos no Museu de Arte Antiga. Estávamos lá, em teoria, para fazer cópias, mas interessava-nos era olhar para algumas, poucas, pinturas e usufruir do jardim; ele estava lá para estudar os Painéis de São Vicente. Quando descobria ou pensava descobrir alguma coisa dizia, muito teatral: “Eureka!”.


– Foi o Francisco Tropa quem se referiu à Lourdes como a pessoa mais serena que conhece… Bem, na verdade referiu o casal Lourdes/Manuel [Manuel Zimbro, seu companheiro na vida e na arte durante mais de trinta anos] como os dois seres mais serenos que conheceu.


– Sabes, Ricardo, é que quando dizíamos um disparate ficávamos dias a pensar porque é que o teríamos dito.


Chegar a si dá trabalho, Lourdes.

Ricardo Nicolau, 2 de abril de 2020