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Cartas à Lourdes: das 4 às 5
II. É servido?
“Voltámos a falar do casal Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes. “Eram gente.” Voltámos a falar de roupa, das roupas que lhe eram oferecidas pela pintora. A Lourdes sempre gostou de roupa, e sempre gostou que não se notasse o esforço que fazia para se arranjar: “Tudo tem de parecer natural, como se não tivesses perdido um minuto a pensar nisso. Em Lisboa comprei uma vez tecidos com motivos e bordados tradicionais que se vendiam para fazer lenços. Em vez disso, eu fiz vestidos, que eram um sucesso porque não se percebia muito bem de onde e de quando vinham. Também me lembro de uma senhora que gostava muito de artistas me ter oferecido em Paris um casaco de lã forrado com peles, peles verdadeiras! Isso é que era, quis-me parecer, o cúmulo do conforto e do requinte, e da justeza: ter peles para si e mais ninguém, não para mostrar que se tem”.
Ainda no tema dos bordados, a Lourdes lembra-se de abrir portas e janelas quando em Paris, nos espaços exíguos onde vivia e trabalhava, decidiu trabalhar primeiro com Plexiglas e depois com bordados. Os sons da rua e do prédio faziam-lhe companhia.
– Hoje recebi os postais que me enviou, Lourdes. Gostei muito da frase que escreveu no papel que os acompanhava e que já não se ouve muitas vezes: “É servido?”.
Gosto tanto de postais, disse-me a Lourdes. “Até fiz um catálogo que era uma coleção de postais. Têm o tamanho e a presunção exatos – pequenos – e juntam duas coisas de que sempre gostei de me rodear: letras e imagens. Além disso, estão sempre a passear.”
Passeios, viagens… Já disse que a Lourdes viajou muito recorrendo ao auto-stop.
― Amanhã conto-te, Ricardo, a minha viagem à Dinamarca.
Ricardo Nicolau, 4 de abril de 2020
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