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Cartas à Lourdes: das 4 às 5


IV. Nada para ensinar, tudo para aprender

Os nossos telefonemas começam invariavelmente com uma descrição da situação meteorológica: “Hoje faz sol, hoje as nuvens estão baixas e muito brancas…”. Ou: “Hoje chove, as nuvens estão escuras…”. Ou: “Já esteve de tal forma e agora está o contrário”. Na Madeira há num só dia uma variedade de céus que envergonha a constância entediante do tempo no continente, pelo que a Lourdes tem sempre mais para ver e descrever.

“Ainda há quem diga que tudo perde quando não pode sair; que não têm nada para fazer – como se fazer e não fazer não fossem a mesma coisa. Eu posso ficar horas a olhar para o céu… E também gosto de saber todos os dias que tempo fez quando estive a dormir – deixo um balde na rua para de manhã perceber se choveu. Isto também serve, claro, para saber se o jardim precisa de ser regado”.


Já te contei a história do anjo? Lembro-me de, quando era pequena, ver anjos nas procissões e querer estar ali, também eu ser um anjinho. Nunca consegui. Nos anos 1960, num determinado Natal, o diretor de um teatro experimental parisiense deu-me carta-branca para fazer exatamente aquilo que eu quisesse. Fui finalmente um anjo, em palco, vestida de branco e com asas feitas pelo René [Bertholo] que se mexiam e tudo. Na plateia e nos balcões, quando tudo estava escuro, os espectadores acenderam aqueles pauzinhos de festa que ardem como pequenas estrelas.

Ricardo Nicolau, 8 de abril de 2020