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Cartas à Lourdes: das 4 às 5


VI. A escolha do carteiro

― Já te contei, Ricardo, a história da carta que chegou ao seu destinatário com 50 anos de atraso?

― Há três anos o João Fernandes, com quem falo regularmente ao telefone, referiu-se a uma exposição que estava a preparar para o Palacio Velázquez, em Madrid, de um artista alemão chamado Franz Erhard Walther. Perguntou-me se eu conhecia o seu trabalho, se alguma vez teria visto uma exposição sua, que eu haveria de gostar… Claro que sim: a sua obra entusiasmou-me ao ponto de lhe escrever uma carta, que encontrei fechada, por enviar claro está, dentro de um catálogo do artista que comprei ou me foi oferecido nos anos 1960. O João, que veio visitar-me pouco tempo depois do telefonema, foi o carteiro que, de volta a Madrid, entregou finalmente, com 50 anos de atraso, a carta esquecida ao seu destinatário. Pouco tempo depois, chegou-me pelo correio uma carta de Franz Erhard Walther, essa escrita poucos dias antes. 
Mas há cartas que nunca chegam! No outro dia falámos de postais, do meu amor por postais. O mais bonito postal que alguma vez recebi foi-me enviado pelo artista Ben Vautier. Recebê-lo significou que ele nunca chegou a outra pessoa! Tinha dois destinatários, o crítico de arte Otto Hahn e eu, e o carteiro teve de escolher quem o receberia. Além dos dois nomes e das respetivas moradas, no postal pode ler-se qualquer coisa como: “Au choix du facteur” [À escolha do carteiro], ou “Choix du facteur” [Escolha do carteiro].

Ainda no tema dos postais, a Lourdes lembra-se de quase todos na sua família os juntarem em álbuns. Também ela colecionou postais; também ela toda a vida fez álbuns – álbuns de viagens (em que reuniu fotografias e “papelinhos” trazidos de cada destino), álbuns das suas exposições (com fotografias das obras, textos escritos a seu propósito, mais “papelinhos”) e o álbum mais conhecido de todos, o Álbum de Família, composto por mais de quarenta cadernos que desde 1963 a artista tem vindo a preencher com imagens e textos das mais diversas origens, relacionados com o motivo de praticamente todo o seu trabalho desde aquela altura: a sombra. Quase todos os álbuns têm escritos seus, mas a Lourdes não gosta, parece-lhe pretensioso, de lhes chamar textos. Chamemos-lhes apontamentos, notas. “Texto, texto eu chamo a qualquer coisa como aquilo que escrevi para o livro A Praia Formosa. Saiu-me de um jato, como se já estivesse escrito e só precisasse que alguém tomasse a iniciativa de o passar para o papel…”

– Vou reler esse texto, Lourdes, e ainda havemos de falar sobre a Praia Formosa.

E ainda sobre os álbuns, Ricardo, sabes quem é que esteve na origem do Álbum de Família? A “culpa” foi da galerista Ileana Sonnabend.

A Galeria Sonnabend abriu em Paris em 1962 e, interessada em conhecer o trabalho de jovens artistas, a Ileana Sonnabend pediu-me para lhe mostrar os meus trabalhos. A sua reação ao ver as minhas primeiras pinturas de sombras ― “não está mal, mas já foi feito” ―, levou-me a querer saber tudo aquilo que em arte já se tinha produzido a partir desse tema. “Desconfiei que ela estava a confundir silhueta com sombra, mas como recusava a ideia de estar a repetir aquilo que outros tinham feito resolvi estudar e reunir tudo o que tivesse que ver com a sombra. Os primeiros cadernos centravam-se na história da arte, mas fui ampliando as referências, também graças a amigos que me faziam chegar tudo aquilo que encontravam relacionado com a sombra, até incluir textos literários e filosóficos e imagens publicitárias e científicas, por exemplo.”

– Os Álbuns de Família foram apresentados na exposição da Lourdes e do Manuel [Zimbro] no Museu de Serralves, em 2010…

– Sim, Ricardo, mas na altura, fechados em vitrinas, os visitantes só podiam ver uma página de cada caderno. Anos depois, o Miguel Wandschneider soube contornar esse problema, fazendo uma exposição em que cada dia mostrava uma página de cada um.

Lourdes Castro: Os Meus Álbuns de Família Um a Um foi apresentada na Culturgest (Lisboa) em 2016. Não vi a mostra, mas a Lourdes contou-me que. durante todas as manhãs do período em que esteve aberta ao público, o Miguel Wandschneider passava pela galeria da exposição, abria a vitrina que guardava os cadernos e virava a página a cada um dos 36. Os espectadores que visitaram a mostra mais do que uma vez nunca encontraram a mesma página em cada um dos álbuns. Além disso, no fundo da sala era projetado um vídeo onde durante cerca de dez horas eram folheados na íntegra todos os álbuns. Um dia atrás do outro. A vida como ela é.

Ricardo Nicolau, 8 de abril de 2020