Pedro Henriques
Espasmo Quadrado

Quick release 2 (pormenor), técnica mista sobre madeira, 2025
Ao longo de um percurso de praticamente duas décadas, em que se dedicou a vários meios artísticos, Pedro Henriques (Porto, 1985) examinou continuamente os diferentes conceitos de cultura visual, propondo reflexões sobre a forma como, num contexto caracterizado pela ascensão da tecnologia e dos meios digitais, produzimos, consumimos e fazemos circular imagens.
Henriques apresenta, no Museu de Serralves, uma seleção criteriosa do seu trabalho dos últimos 20 anos, realizado em meios tão diversos quanto a escultura, o desenho e impressões a meio caminho entre a pintura, o desenho e a gravura industrial, expostos sem atenção a cronologias e a especificidades materiais (esta mistura deliberada quase se traduziu na palavra Rapsódia).
O título da exposição em Serralves traduz exemplarmente a sua prática. Não é por acaso que a utilização de duas palavras com sentidos opostos, ou contraditórios, é uma estratégia recorrente na hora de dar nomes a peças e a exposições. Trata-se de um artista cuja prática se pode definir pela constante reunião de contradições. Melhor explicando: as três dimensões das suas esculturas não garantem profundidade, nem a bidimensionalidade das suas impressões descarta um exercício sobre ela. A aparente inconsciência e expressividade dos seus desenhos (espasmos) é acompanhada e posta em marcha por processos meticulosos e racionais (quadrados). O carácter manual convive com métodos industriais; a velocidade do gesto é calibrada pela repetição e multiplicação de procedimentos; o aspeto tecnológico, que parece ajustar-se sem fricções à paisagem visual contemporânea, é questionado pelo recurso a ferramentas digitais consideradas anacrónicas. Podemos dizer que a prática de Pedro Henriques traduz justamente a ideia de que o acaso é algo que deve ser rigorosamente preparado.
A deliberada reunião de trabalhos de diferentes séries — executadas em anos diferentes, recorrendo a materiais e códigos distintos — em três das quatro galerias onde se desenrola a sua exposição congrega vários objetivos: pensar retrospetivamente aquilo que de comum se esconde por detrás de aparências tão múltiplas; criar ligações e novas leituras possíveis de peças até aqui lidas de determinada forma; multiplicar o autêntico jogo de espelhos posto em marcha em cada projeto com novos espelhos, mais reflexões e mais refrações.
Assinale-se que, num gesto coerente — porque contraditório —, à multiplicidade das peças é contraposto um gesto de homogeneização: o artista criou um sistema de iluminação que percorre as quatro galerias e que funciona como um elemento simultaneamente autónomo, físico, e rigorosamente funcional, transparente (exclusivamente ao serviço da melhor leitura de determinados trabalhos).
Esta exposição de Pedro Henriques será a sua primeira mostra individual numa instituição. É também o regresso do artista ao Museu de Serralves depois de, em 2014, ter sido um dos quatro artistas aí apresentados no contexto do prémio «novobanco Revelação».
A exposição, produzida pelo Museu de Serralves, tem curadoria de Ricardo Nicolau e é coordenada por Giovana Gabriel.