
Black Draftee (James Hunter), 1965. Oil on canvas. Courtesy of Comma Fondation, Belgium
Inauguração | 16 JUL 22:00 | Entrada gratuita
Hoje reconhecida como uma das mais importantes artistas do século XX, Alice Neel (1900-1984) construiu uma obra fiel à sua visão. O seu percurso, iniciado na década de 1920, acompanhou alguns dos principais acontecimentos e movimentos sociais do último século: a Grande Depressão, a Segunda Guerra Mundial, o pós-guerra, o movimento pelos direitos civis, as lutas pelos direitos das mulheres e o movimento de libertação gay. A história do seu tempo entra na pintura pelas pessoas que retratou e pelas condições sociais em que viveram.
Com uma vida marcada por adversidades pessoais e profissionais, Neel recusou ajustar a pintura às expectativas do mercado e do meio artístico, mantendo a figura humana no centro do seu trabalho durante os anos em que a abstração era valorizada pela crítica, museus e galerias norte-americanas. Durante décadas, trabalhou com pouco reconhecimento institucional, mas a sua projeção aumentou a partir do final da década de 1960 e, em 1970, o retrato da célebre escritora e ativista feminista Kate Millett foi publicado na capa da revista Time, dando ampla visibilidade à sua pintura; no mesmo ano, Neel retratou Andy Warhol. Em 1974, o Whitney Museum of American Art apresentou a primeira retrospetiva da artista, quando tinha 74 anos.
Para Neel, a imperfeição fazia parte da própria existência. O título da exposição, Beautifully Imperfect, a primeira da artista em Portugal, traduz essa forma de olhar, de pintar e de viver, própria de uma artista excêntrica, determinada e irredutível perante as convenções, que rejeitava a artificialidade dos ideais de beleza e preferia mostrar os corpos, os rostos e as marcas do tempo e da vida tal como eram.
Nos seus retratos, realizados na sua maioria ao vivo, a expressividade, a vulnerabilidade sem artifícios e a singularidade de quem posava prevaleciam sobre a precisão anatómica e a imagem idealizada. A artista referiu-se a si própria como uma "colecionadora de almas", expressão que traduz a atenção ao carácter, à fragilidade e à presença psicológica de cada pessoa retratada. Em Neel, a imperfeição tornava-se, assim, uma forma de resistência.
É também nesse sentido que a radicalidade da sua pintura permanece atual. A visibilidade que deu aos moradores negros e porto-riquenhos do Spanish Harlem, onde viveu por mais de vinte anos, aos artistas e performers queer e aos corpos que escapam aos padrões dominantes reverbera hoje nos debates sobre diversidade, género, sexualidade, desigualdade, representação e padrões de beleza. Familiares, vizinhos, trabalhadores, imigrantes, escritores, ativistas, políticos e figuras públicas, pessoas próximas ou desconhecidas receberam a mesma atenção, independentemente da profissão, da origem ou do estatuto social. Neel pintava pessoas reais na sua complexidade individual e social, deixando ver relações de poder, desigualdades e vidas muitas vezes deixadas à margem. O envelhecimento, a doença e a morte ocupam também um lugar importante na sua obra; a passagem do tempo torna-se visível sem suavização, na pele, nas posturas e nas transformações do corpo.
A exposição reúne obras de diferentes períodos do percurso de Neel, de 1926 a 1983, um ano antes da sua morte, e está organizada em pequenos núcleos temáticos estruturados de forma não cronológica.
Beautifully Imperfect é organizada pela Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, com curadoria de Inés Grosso, curadora-chefe do Museu de Serralves. A coordenação da exposição é de Filipa Loureiro, coordenadora de exposições temporárias.
Registo: Daniela Oliveira.
Apoio na pesquisa e compilação do arquivo: Mattia Tosti.
A exposição contou com o apoio da Terra Foundation for American Art, da FWA - Foundation for Women Artists e de Charlotte Feng Ford.
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