ÁLVARO SIZA – DO OUTRO LADO DO ESPELHO
Museu Carmen Miranda, Marco de Canaveses — Sala de Exposições Temporárias
Inauguração: 31 de março às 17:00

Imagem: Álvaro Siza Vieira, Sem título (detalhe), n. dat. Col. Fundação de Serralves – Museu de Arte Contemporânea, Porto. Doação do artista em 2021.
Álvaro Siza (Matosinhos, 1933) habita uma espécie de museu imaginário, onde se desenhou si próprio num exercício contínuo de (re)criação e de desdobramento poético. Um universo próximo da arquitetura, mas mais íntimo, simultaneamente luminoso e por vezes doloroso, na inevitável contaminação com o de sua mulher, Maria Antónia Siza, cuja morte prematura, em 1973, parece ter sido sublimada nos anjos que a sua mão incessantemente convoca no papel.
O artista procura reconciliar fragmentos da sua própria história pessoal numa visão global — weltanschauung —, tal como o arquiteto tenta reparar o corpo fraturado da cidade através da antiga filosofia de kintsugi. Não é por acaso que esta coleção de obras se inicia em 1979, coincidindo com o princípio da sua carreira internacional em Berlim, uma cidade profundamente dividida pela guerra.
Esta secção inicia-se, contudo, de forma alegórica, no período Jurássico, com Siza a emergir da sopa primordial dos nossos antepassados sobre o dorso de um braquiossauro. A geografia familiar do desenho evoca a paisagem montanhosa que se vislumbra desde a fenêtre en longueur da Igreja de Santa Maria, no Marco de Canaveses, lugar da florestal origem da própria arquitetura: do primeiro homem e da primeira mulher até à cena da Natividade, onde a profecia messiânica de David é transfigurada pelo saber bíblico de Le Corbusier.
Celebrando os trinta anos de inauguração da Igreja de Santa Maria, encomendada pelo então pároco Nuno Higino, a exposição reflete sobre o dom do conhecimento através do desenho. Na mitologia grega, o conhecimento foi o dom concedido à humanidade por Prometeu, o titã que roubou o fogo aos deuses e que foi salvo pelo sacrifício da imortalidade de Quíron. Este, por sua vez, havia sido transfigurado em cavalo pelo seu pai, Cronos, pelo que a centauromaquia, o rapto de Dejanira por Nesso, e até a tauromaquia, se tornaram temas que Siza adotou a partir de Picasso, cujas gravuras contempla todos os dias antes de adormecer.
Os olhos tornam-se então fragmentos de infinito e sombras fugazes de um sonho: “Fechava os olhos, riscava sem ver o papel, sentia apenas o sulco — a tinta a derramar a forma.” O derramar da forma exerce um processo de purificação que se tornou ainda mais depurado quando Álvaro Siza partiu o braço. As linhas transformam-se em narrativas rápidas, onde o movimento e o ritmo se sintetizam de modo quase escultórico. A paixão de Siza pela escultura não é segredo, desde que o pai o convenceu a seguir arquitetura, em 1948, quando visitaram as obras de Gaudí em viagens de família a Espanha. Talvez por isso desenhe como quem esculpe e esculpa como quem constrói arquitetura.
Esta exposição, com curadoria do Diretor de Arquitetura, António Choupina, integra o Programa de Exposições Itinerantes da Coleção
de Serralves que tem por objetivo tornar o acervo da Fundação acessível a públicos diversificados de todas as regiões do país.
Produção: Fundação de Serralves — Museu de Arte Contemporânea, Porto

