ÁLVARO SIZA – DO OUTRO LADO DO ESPELHO
Museu Carmen Miranda, Marco de Canaveses — Sala de Exposições Temporárias
Inauguração: 31 de março às 17:00

Imagem: Álvaro Siza Vieira, Espelho Álvaro (detalhe), c. 1975. Cortesia Álvaro Siza
Álvaro Siza (Matosinhos, 1933) habita uma espécie de museu imaginário, onde se desenhou si próprio num exercício contínuo de (re)criação e de desdobramento poético. Um universo próximo da arquitetura, mas mais íntimo, simultaneamente luminoso e por vezes doloroso, na inevitável contaminação com o de sua mulher, Maria Antónia Siza, cuja morte prematura, em 1973, parece ter sido sublimada nos anjos que a sua mão incessantemente convoca no papel.
O artista procura reconciliar fragmentos da sua própria história pessoal numa visão global — weltanschauung —, tal como o arquiteto tenta reparar o corpo fraturado da cidade através da antiga filosofia de kintsugi. Não é por acaso que esta coleção de obras se inicia em 1979, coincidindo com o princípio da sua carreira internacional em Berlim, uma cidade profundamente dividida pela guerra.
Esta secção inicia-se, contudo, de forma alegórica, no período Jurássico, com Siza a emergir da sopa primordial dos nossos antepassados sobre o dorso de um braquiossauro. A geografia familiar do desenho evoca a paisagem montanhosa que se vislumbra desde a fenêtre en longueur da Igreja de Santa Maria, no Marco de Canaveses, lugar da florestal origem da própria arquitetura: do primeiro homem e da primeira mulher até à cena da Natividade, onde a profecia messiânica de David é transfigurada pelo saber bíblico de Le Corbusier.
Celebrando os trinta anos de inauguração da Igreja de Santa Maria, encomendada pelo então pároco Nuno Higino, a exposição reflete sobre o dom do conhecimento através do desenho. Na mitologia grega, o conhecimento foi o dom concedido à humanidade por Prometeu, o titã que roubou o fogo aos deuses e que foi salvo pelo sacrifício da imortalidade de Quíron. Este, por sua vez, havia sido transfigurado em cavalo pelo seu pai, Cronos, pelo que a centauromaquia, o rapto de Dejanira por Nesso, e até a tauromaquia, se tornaram temas que Siza adotou a partir de Picasso, cujas gravuras contempla todos os dias antes de adormecer.
Os olhos tornam-se então fragmentos de infinito e sombras fugazes de um sonho: “Fechava os olhos, riscava sem ver o papel, sentia apenas o sulco — a tinta a derramar a forma.” O derramar da forma exerce um processo de purificação que se tornou ainda mais depurado quando Álvaro Siza partiu o braço. As linhas transformam-se em narrativas rápidas, onde o movimento e o ritmo se sintetizam de modo quase escultórico. A paixão de Siza pela escultura não é segredo, desde que o pai o convenceu a seguir arquitetura, em 1948, quando visitaram as obras de Gaudí em viagens de família a Espanha. Talvez por isso desenhe como quem esculpe e esculpa como quem constrói arquitetura.
Esta exposição, com curadoria do Diretor de Arquitetura, António Choupina, integra o Programa de Exposições Itinerantes da Coleção
de Serralves que tem por objetivo tornar o acervo da Fundação acessível a públicos diversificados de todas as regiões do país.
Produção: Fundação de Serralves — Museu de Arte Contemporânea, Porto

