DESOBEDIÊNCIA CIVIL: O CINEMA DA INSURREIÇÃO

CAC – Centro de Artes e Criatividade | Torres Vedras
Fora de Portas
18 NOV 2022 - 26 NOV 2022

O acesso a todas as atividades do ciclo Desobediência Civil: o cinema da insurreição é gratuito mediante levantamento antecipado de bilhete.

<p>A Raiz do Coração (2000), Paulo Rocha</p>

A Raiz do Coração (2000), Paulo Rocha

Ciclo de cinema organizado pela Casa de Cinema Manoel de Oliveira - Fundação de Serralves, Porto.

Os três dias do Carnaval marcam um período em que as regras sociais estabelecidas e as convenções impostas são temporariamente suspensas ou parodiadas. É, portanto, um momento em que se desfazem hierarquias, se invertem os papéis de classe e de género, se joga entre o sagrado e o profano e se zomba da autoridade e dos valores da moral. No entanto, mais do que uma manifestação estritamente folclórica, o carnavalesco enquanto categoria crítica extrapolada para o domínio da literatura e das artes tem permitido designar um conjunto de atitudes iconoclastas e de objetos subversivos que não só testam os limites do bom gosto, como a própria noção de cânone. Consequentemente, a cultura popular surge como elemento desestabilizador que se inscreve no contexto da dita cultura erudita de forma potencialmente revolucionária, tanto a nível estético como político, propondo assim uma visão alargada do mundo. A força destrutiva do riso prende-se, pois, com a consciência de que tudo o que é social é necessariamente contestável.

Este ciclo de cinema, intitulado Desobediência Civil: o cinema da insurreição, apresenta uma seleção de títulos onde estas reflexões são centrais do ponto de vista formal, temático e narrativo. O cinema, arte popular por excelência, dialogou intimamente, desde a sua génese, com a tradição do burlesco, nomeadamente na mediação dos espetáculos de variedades e na lógica das atrações. Muito do cinema moderno afirma-se, exatamente, pela atualização dessa força disruptiva que se encontra no cinema primitivo. Os filmes que constituem este programa, oriundos de diferentes contextos culturais e momentos históricos, participam desta genealogia oferecendo retrospetivamente uma panorâmica sobre as traduções fímicas desse regime de exceção que é o carnavalesco.


Organizado entre dois fins de semana, este programa, pensado a partir da relevância social, histórica e cultural do Carnaval de Torres Vedras e especialmente concebido para ser apresentado no CAC – Centro de Artes e Criatividade e em diálogo com os seus espaços expositivos, conta com quatro filmes representativos daquilo a que se pode chamar um cinema da insurreição. Todas as sessões contarão com a apresentação por um convidado e serão acompanhadas pela edição de uma brochura contendo textos de análise e contextualização dos filmes programados, havendo ainda sessões especificamente orientadas para um público escolar.

PROGRAMA

18 NOV | 21H00

La Grande Bouffe (1973)

Marco Ferreri

130 minutos
M18

Retrato impiedoso da sociedade burguesa e dos paradoxos da sobreabundância capitalista à luz da tradição da comédia italiana dos anos 1970, por aquele que foi um dos mais mordazes e politicamente engajados cineastas desse período. A trama é bastante simples e desarmante: Marcello (Marcello Mastroianni), um piloto, Michel (Michel Piccoli), um executivo de televisão, Ugo (Ugo Tognazzi), um «chef», e Phillippe (Philippe Noiret), um juiz, querem comer até morrer naquilo a que se pode chamar um suicídio gastronómico. Após a primeira noite, Marcello insiste que devem juntar-se mulheres ao grupo. Três prostitutas conseguem aguentar um ou dois dias, mas é Andrea (Andréa Ferréol), uma professora local, que ficará mesmo até ao fim, fascinada pelo desejo suicidário dos protagonistas.

APRESENTAÇÃO

Ricardo Vieira Lisboa

Crítico e programador


19 NOV | 21H00

Multiple Maniacs (1970)

John Waters

96 minutos
M18

O filme que afirmou John Waters como o rei do mau gosto e a atriz Divine como a campeã da perversidade é, nos limites da comédia, um retrato irreverente do “american way of life” e uma paródia à sociedade de consumo nos seus contornos mais conservadores e moralistas. Nas palavras do próprio realizador, “o enredo é bastante complicado: Lady Divine (Divine) e o namorado, Mr. David (David
Lochary), dirigem um espetáculo itinerante de horrores (a Cavalgada da Perversão) que atrai jovens donas de casa, empresários e swingers suburbanos para fora das suas casas de campo até uma pequena tenda onde os deixam boquiabertos com seus horrores favoritos (viciados, pornógrafos, homossexuais), prontos para serem roubados e às vezes assassinados pela psicótica Lady Divine e o seu gangue de drogados. Mr. David percebe que o seu romance de seis anos com Lady Divine está a desmoronar-se e tenta a sua sorte com Bonnie (Mary Vivian Pearce) […]. Lady Divine descobre o caso através da denúncia de uma empregada de balcão intrometida (Edith Massey) e começa a perder o controlo. Visita uma igreja vazia para rezar, mas é seduzida por uma religiosa pervertida (Mink Stole) que se esconde em confessionários, onde dá ‘trabalhos de rosário’. Mink e Lady Divine ‘apaixonam-se’, e Mink concorda em ajudar Lady Divine a assassinar o seu marido e a sua nova amante. Depois de trinchar e comer as entranhas das suas vítimas, Lady Divine perde completamente a cabeça e é atacada e violada por uma lagosta grelhada de quatro metros e meio (Lobstora). Atordoada e enlouquecida, ela cambaleia até à rua, causando pânico em massa, e finalmente é morta a tiro pela polícia.” Produzido num contexto de cinema underground, a obra de John Waters passou de objeto de culto a marco fundamental na história do cinema norte-americano do último meio século, tendo a sua filmografia sido alvo de inúmeras retrospetivas e homenagens pelos mais prestigiados museus e cinematecas.

APRESENTAÇÃO

Vasco Araújo

Artista visual



25 NOV | 21H00

A Raiz do Coração (2000)

Paulo Rocha

118 minutos
M12

O filme acompanha um conturbado processo eleitoral para a Câmara Municipal de Lisboa, colocando um candidato populista que apela a um regresso à ordem e aos bons costumes em confronto com uma aguerrida milícia de transformistas. Uma das últimas obras de Paulo Rocha, e aquela que melhor demonstra o gosto pela experimentação que caracteriza a segunda metade da sua obra. Tudo se passa durante as Festas de Santo António, patrono dos namorados e da cidade velha. Catão (Luís Miguel Cintra), político nacionalista, carismático e sem escrúpulos, persegue obcecadamente Sílvia (Joana Bárcia), um jovem travesti algo místico. Certa noite, entretanto, Sílvia cruza-se com Vicente (Melvil Poupaud), dito "o Corvo", polícia perseguidor dos travestis que, disfarçados de Noivas de Santo António, atacam as Festas da Cidade. Protetora de Sílvia, a misteriosa Ju vive de pequenas chantagens. Estranhas fotografias comprometedoras de Catão circulam entre os Partidos da Oposição. Pronto a tudo, Catão vai pôr em causa a sua carreira ao bater-se pelo regresso de Sílvia.

APRESENTAÇÃO

Regina Guimarães

Escritora e videasta



26 NOV | 21H00

Sedmikrásky (Daisies, 1966)

Vera Chytilová

74 minutos
M16

Título seminal da Nova Vaga Checa, Dasies relata as desventuras de duas jovens que, entre risos e brincadeiras, vão destruindo tudo por onde passam. Assinado por Věra Chytilová, cineasta do estilo e da visualidade, o filme viria a ser banido e a realizadora proibida de filmar por vários anos. Marie I e Marie II decidem que se tornarão tão mesquinhas, obscenas e mimadas na mesma medida em que a sociedade que a rodeia é mesquinha, obscena e mimada. A partir desse momento de viragem, elas iniciam uma jornada por diferentes lugares, situações e encontros, não deixando pedra sobre pedra. A sua transgressão não tem limites e, no fim de contas, não levam nada a sério, nem a comida, nem as roupas, nem os homens, nem a guerra.

APRESENTAÇÃO

Teresa Vieira

Jornalística, crítica e programadora


PROGRAMA EDUCATIVO


Rita ou Rito?… (1927)

Reinaldo Ferreira

41 minutos
M12


Distribuído pela Repórter X Film, Rita ou Rito?... explora um caso alegadamente real ocorrido na cidade de Aveiro e referenciado na imprensa da época, sendo o primeiro filme português a abordar a temática do travestismo. Mais do que uma mera comédia de enganos, o filme enfrenta – de um modo tão desassombrado quanto polémico – todo um conjunto de temáticas incómodas, que vão do colonialismo à representação dos negros no cinema (nomeadamente a prática do blackface, em que as personagens negras são interpretadas por atores bancos com a cara pintada de preto), passando igualmente pelos estereótipos de género e respetivos papeis sociais; ou seja, questões que se prestam a ser discutidas, numa perspetiva de problematização, com um público escolar.

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