MANOEL DE OLIVEIRA E O CINEMA PORTUGUÊS
3. VOLTAS DA VIDA – ONTEM COMO HOJE (1990-2015)

Fotograma de "Vale Abraão" (1993), Manoel de Oliveira.
Esta é a terceira e última parte de um ciclo de três exposições iniciado em 2023, que tem por objetivo colocar o arquivo pessoal do realizador, integralmente depositado em Serralves, em diálogo com uma cartografia do cinema português que lhe foi contemporâneo. Organizadas em sequência temporal, a primeira destas exposições, intitulada A Bem da Nação (1930-1970), incidiu sobre a época do Estado Novo e, tendo apresentado o arquivo do cineasta na sua totalidade, constituiu um primeiro ensaio de desarquivamento do extenso núcleo documental por ele reunido ao longo de mais de oitenta anos de trabalho.
A segunda etapa, Liberdade! (1970-1990), centrou-se no contexto temporal imediatamente anterior e posterior à Revolução de 25 de Abril de 1974, investigando, sob o prisma do anacronismo, o modo como Manoel de Oliveira se colocou “fora do tempo” para construir, por contraste com a restante produção fílmica de então, uma visão singular do país, da sua história e da sua atualidade política. Rematando a trilogia, esta mostra examina os vinte e cinco anos decorridos entre 1990 e 2015, ano do seu falecimento, completando também a cronologia do cinema português que constitui o pano de fundo desta revisão.
Neste arco final do seu longo percurso, já depois de ter ultrapassado os oitenta anos de idade, Manoel de Oliveira concluiu trinta e um filmes (vinte deles longas-metragens de ficção), número consideravelmente superior ao que havia realizado nas seis décadas precedentes (catorze). Entre a maturidade, marcada pelo aprimoramento do seu vocabulário autoral, e a fase tardia, caracterizada por um crescente despojamento, estas duas últimas décadas constituem o momento em que Oliveira combina a serenidade clássica, finalmente alcançada, com a síntese, variação e radicalização de muitas das configurações estéticas e temáticas da sua obra anterior.
Seja pelo aprofundamento da especulação sobre o país, a história, os destinos da Europa e da civilização, seja pela via de uma estrita economia de recursos formais, pelo agudizar de uma consciência crítica do próprio percurso ou pela reflexão muito pessoal (até mesmo autobiográfica) sobre a passagem do tempo, este é um período de plenitude, ao qual não será estranha a consolidação das condições de produção e a definitiva consagração internacional da obra e do autor. Esta é também uma fase que coincide com uma forte internacionalização do cinema português e com a emergência de uma nova geração de cineastas que, continuando a bater-se (quantas vezes contra ventos e marés), pela afirmação do cinema de autor, encontrou na figura exemplar de Manoel de Oliveira uma proteção imprescindível.
A exposição é organizada pela Fundação de Serralves — Casa do Cinema Manoel de Oliveira, com curadoria de António Preto e João Mário Grilo, e coordenação de Carla Almeida.
O trabalho de pesquisa foi desenvolvido em colaboração do CineLab – Ifilnova, Instituto de Filosofia da Universidade Nova de Lisboa e a cronologia do cinema português (1920-2015) contou com a contribuição da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema.