
Imagem: © Pedro Sotero
Cinéfilo e antigo crítico de cinema, Miguel Gomes é um dos mais aclamados realizadores portugueses. A sua obra cruza a radicalidade formal de Manoel de Oliveira com a veia iconoclasta de João César Monteiro, num percurso irreverente que subverte os géneros e os modelos narrativos do cinema clássico. Para este realizador, tão atento à realidade quanto sedento de ficção, o cinema é o encontro entre preparação e inesperado. De resto, como o próprio costuma dizer, todos os seus filmes são adaptações de O Feiticeiro de Oz.
A Casa do Cinema Manoel de Oliveira apresenta a primeira exposição dedicada à obra de Miguel Gomes, centrada nos seus métodos de trabalho. Regras absurdas que o próprio inventa e crises de produção, reais ou encenadas, obrigam o realizador a reagir ao que acontece. Trabalhando com colaboradores próximos, Gomes entrelaça a escrita, a rodagem e a montagem num processo em que as histórias e as imagens recolhidas podem transformar o guião ou dar-lhe origem: em As Mil e Uma Noites, as histórias investigadas por uma equipa de jornalistas no Portugal da austeridade dão matéria à ficção; em Grand Tour, a rodagem documental na Ásia precede a escrita do guião.
A exposição reúne todas as curtas-metragens de Miguel Gomes e excertos das longas, a par de materiais de preparação e rodagem: guiões, cadernos, desenhos, fotografias, registos de ensaios e brutos de rodagem. Algumas obras são desdobradas em projeções simultâneas ou remontadas para a exposição, tornando visíveis as relações entre realidade e ficção, entre o processo de trabalho e o filme acabado. Da estreia com Entretanto em 1999 aos atuais projetos, Selvajaria e Cantiga, este conjunto permite acompanhar as sucessivas etapas de elaboração dos filmes de Miguel Gomes e descobrir sequências ausentes das versões finais.
A exposição é organizada pela Fundação de Serralves – Casa do Cinema Manoel de Oliveira, com curadoria de António Preto e coordenação de Carla Almeida.