A LEITURA FURIOSA é um encontro anual, festivamente sisudo, um encontro improvável... No Porto dura quatro dias. É um momento privilegiado de encontro entre pessoas que estão zangadas com a leitura e escritores. É uma ocasião rara que permite a um não-leitor aproximar-se da elaboração da escrita graças ao contacto com um escritor. É também um tempo em que esse não-leitor zangado (também com o mundo) pode fazer ouvir a voz, porventura imaginar um outro caminho para a sua vida.
A Associação Cardan, de Amiens, fundada em 1978, dirigida às pessoas com dificuldades sociais e económicas e focada na luta contra a iliteracia, «fabricou» o evento Leitura Furiosa, graças ao produtor militante Luiz Rosas. O Luiz Rosas imaginou uma ação em torno da leitura destinada aos muitos humilhados e ofendidos arredados do prazer de ler. Escolheu, para um evento francês, o nome em português - LEITURA FURIOSA - porque é brasileiro de naturalidade, refugiado político em França, desde o início da ditadura de 1964.
A especificidade mais relevante da LEITURA FURIOSA é talvez oferecer ao escritor a oportunidade de escrever com e não apenas escrever para. No caso dos Zangados com a Leitura, a mais relevante especificidade reside na oportunidade de assistir ao parto dum texto. «Escrever com» é integrar tanto quanto possível o dito e o não dito, o som e a fúria, o sussurro e o silêncio, a raiva e o apaziguamento que caracterizam cada um dos encontros nos textos que escritos, imediatamente a seguir às sessões, e submeter esses textos ao julgamento dos participantes. Escrever um texto é traduzir por palavras sentimentos, acontecimentos ideias, desejos, dúvidas, etc. por palavras. A ilustração, tal como intervém concretamente na LEITURA FURIOSA, obedece a um programa semelhante no campo da visualidade...
Um outro traço característico da LEITURA FURIOSA é o seu ritmo vertiginoso que, além de escritas e ilustrações, implica uma publicação, traduções para os textos serem difundidos noutras cidades, uma visita a lugares de livros (habitualmente livrarias), uma apresentação pública com a participação de músicos.
A LEITURA FURIOSA é, e deseja continuar a ser, experimental. Ou seja: é um evento imperfeito, um empreendimento que se confronta com o atrito do real. Sem a valorização do perigo de perder certezas e a procura do desconforto, não há LEITURA FURIOSA. E isso inclui a luta contra o conforto da exclusão, ou seja a desistência, por parte dos excluídos, de mudar de vida.
O MUSEU DE SERRALVES, através do seu SERVIÇO EDUCATIVO é parceiro da LEITURA FURIOSA desde sempre e acolhe a APRESENTAÇÃO PÚBLICA DOS RESULTADOS.
Não existe leitura sem poética da escuta. Todos os anos a escuta pública dos textos produzidos no Porto e noutras cidades acontece na BIBLIOTECA DE SERRALVES.
Este ano terá lugar no domingo, dia 24 de maio, no quadro inspirador desse mesmo espaço luminoso, às 16h00. Reúne o maior número de participantes que conseguimos mobilizar numa sessão aberta, informal e gratuita à volta do fogo central das escritas, que inclui uma componente musical. A todos os presentes será entregue um envelope com todos os textos e ilustrações do ano 2026. No final da partilha dos frutos da LEITURA FURIOSA, a conversa abre-se ao público e mais uma vez se reflete sobre o projeto, o processo e o objeto.
